Entrevista com Maria JusTina Tude
Qual a importância do Dia do Poeta e de homenagear os poetas de uma forma geral, especialmente os baianos?
Uma data de celebração é sempre um convite à escuta e reverência à memória daquilo que se celebra e, para mim, sendo um dia para celebrar o sacerdócio que é o ofício de poeta, fica marcado, sobretudo, como filha do poeta Tude Celestino.
Não só a dimensão da celebração da própria poesia baiana contemporânea, como a memória da poesia recente na Bahia e, também por isso, é muito honroso receber essa homenagem a um poeta que morreu praticamente anônimo para o grande público, pois isso, também, é dar às novas gerações a “oportunitude” de conhecer uma obra que fala de um lugar do fazer poesia diverso do fazer atual.
A Poesia Tudina marca um estilo e linguagem próprios de um tempo em que o aspecto formal era um marcador importante e trazer ao público a apreciação de uma obra dessa natureza e desse lugar da forma e das temáticas mais recorrentes na trajetória desse autor, é também contribuir para a salvaguarda da memória e de seu legado literário, de forma que essa celebração colabora para a difusão da obra, a preservação da memória e estímulo às novas produções, marcando no tempo a perpetuação de sua existência.
Tude Celestino (25 de junho de 1921 – 21 de julho de 1989) foi um poeta que representou fortemente Ipitanga, atual município baiano de Lauro de Freitas. Você, como filha, segue honrando sua obra e seu legado através de sua atividade como escritora, artista da palavra e intérprete. Pode nos falar mais sobre essa relação poeta X intérprete e como seu trabalho contribui para a preservação do legado do seu pai?
A trajetória como intérprete da Poesia Tudina nasceu de uma estratégia possível para a difusão da obra, tendo em vista um impedimento jurídico para o lançamento efetivo e edição do livro, pois painho morreu em 1989 sem ter ainda realizado o registro oficial da obra e em plena fase de revisão final do livro O Ás de Ouro, que reunia os seus poemas.
Eu era, então, uma garota de 11 anos e o que eu guardo dessa época na memória da minha infância está marcado por esses momentos finais de revisão daquela obra, em que muitos de nós nos revezávamos para ler para ele a boneca do livro (pois ele era cego) e ele corrigia as falhas da edição.
Mas também havia as memórias dos saraus que ele promovia em nosso quintal, sob a nossa mangueira, em que se reuniam muitos poetas, muitos literatas, pensadores, jornalistas, intelectuais, bailarinas, cantores e artistas em geral da região metropolitana de Salvador e também muitos cantadores e trovadores de todo interior da Bahia, que frequentavam a nossa casa para visitar os nossos saraus e que deixou um registro na minha memória e no coração dessas pessoas, de um grande declamador, não só compositor poeta, mas que também tinha uma alma de ator, que era um grande intérprete.
E é desse lugar da minha memória auditiva, de lembrar dele declamando, que me trouxe a iniciativa e estímulo para dizer seus versos e, assim, registrar sua obra e sua voz poética também neste tempo do agora e para a posteridade.
O repertório dos meus recitais vem dessa memória auditiva de como era painho declamando poesia, recitando não só a sua obra, mas, também, a obra de outros poetas que ele registrou na minha memória, como Quintino Bucaiúva, José Régio, Vitor Hugo, Catulo da Paixão Cearense e o fabuloso Benevides Curaçá.
Eu trago algo daquele arcabouço literário silenciado por 20 anos, desde o falecimento do poeta, para propor a revisitação da sua obra em nossa comunidade cultural na contemporaneidade e, não havendo como lançar o livro, o exercício da récita tornou possível a difusão do repertório, então, há 16 anos, eu me dedico a isso, não só como um exercício da salvaguarda da memória da obra em si, como também uma via de acesso e vinculação à minha memória afetiva paterna.
Eu costumo dizer que recitar a obra de painho me traz de volta ao colo dele. É o lugar onde eu o encontro, onde posso estar, simbolicamente, sob esse olhar paterno, que me faltou desde o nascimento (porque painho cegou exatamente quando eu nasci e, então, eu sou a única filha que ele não viu) e é uma presença que também que me faltou muito cedo, por falecer quando eu tinha apenas 11 anos, então é dizendo poesia que eu me reconheço filha. É o lugar de comunhão e comunicação com meu pai. É um exercício de afetividade e de uma dimensão de memória múltipla, tanto tem a perspectiva da dimensão da memória de onde eu acesso a minha afetividade paterna, como é, também, um exercício de oferecer à contemporaneidade o acesso a essa obra que estaria desaparecida dos nossos olhos e dos nossos ouvidos não fosse por esse espaço de celebração e difusão da obra.
Sobre a obra do poeta Tude Celestino, quais as características principais e o que você acredita que fez com que sua obra se tornasse essa grande referência histórica?
Quanto às principais características da chamada Poesia Tudina (que é a obra relativa ao poeta Tude Celestino de Souza), podem-se destacar aspectos da forma, afinal, trata-se de uma poesia escrita dos anos de 1940 ao fim dos anos 80, um momento em que a literatura ainda registrava uma referência formal, da arquitetura dos versos, como marca da chamada Poesia “profissional”, muito diferente das formas livres mais difundidas na atualidade.
Tude reflete em sua escrita muito do seu tempo, de uma poesia pautada na forma, na métrica e, embora ele tenha sido um poeta autodidata, conviveu com alguns mestres que o ensinaram sobre métrica, sobre rima, sobre contextos melódicos da construção poética e isso fica muito marcado na sua obra.
Quanto às temáticas mais recorrentes, existe uma parte da obra marcadamente matuta, dessa influência da nordestinidade, da poesia sertaneja, dos falares do homem do campo, dos falares dos trovadores e cordelistas com os quais ele conviveu no interior da Bahia e dessa alma sertaneja, uma face da poesia dita matuta que está muito marcado em sua obra em poemas como “Candombá”, a trilogia poética “O Ás de Ouro” ou o poema “Carro de Boi” e os “Desafios” ou séries de glosas de motes famosos do cancioneiro popular, que trazem essa atmosfera do campo, do sertão e da vida sertaneja, mas há também uma outra temática muito recorrente na Poesia Tudina que diz desrespeito à noite, à boemia, ao amor e desamor, em poemas como “Dentro da Noite”, “Boêmio” e “Madalena – Oração 7”, que é uma face da obra escrita no contexto dessa descoberta da cidade, da capital, da vida da boêmia na velha São Salvador dos anos 50 e 60.
Mas, para além do que tem de característica na sua poesia, é do seu pensamento que se pode considerar uma referência importante para a celebração das pertenças de memória e matrizes dos povos originários no território ancestral de Ipitanga que lhe confere um lugar na galeria dos notáveis da cidade que o acolheu, onde ele ainda é considerado uma das mais eloquentes vozes pela reparação de pertenças da identidade local e memória indígena da cultura Ipitanguense.
Então, por tudo isso, tanto quanto ativista por política de memórias de salvaguarda dessas pertenças ancestrais, quanto como pela própria memória da poesia em si, essa missão de difundir a Poesia Tudina pela arte da palavra é uma trajetória que me honra e que me alegra muito e que me tem trazido a encontros especiais como o nosso agora!
Fazendo uma relação da Poesia da época do seu pai com os movimentos presentes relacionados à poesia na Bahia, como você percebe o cenário atual?
Desde a infância, tendo sido criada nos saraus do quintal de painho, eu sempre lidei com a palavra poética, em primeiro lugar, na sua dimensão de oralidade, da poesia falada, da récita poética e da declamação da poesia. Tudo isso está ligado no meu imaginário mais profundo como um caminho entrelaçado, de modo que a poesia para mim é, antes de tudo, dizer poesia e, talvez por não ser poeta, não ser compositora, mas, sendo filha de poeta, tendo nascido filha da poesia, lido com essa dimensão de sacralidade e reverência à palavra poética e da palavra poética em sua dimensão de oralidade enquanto uma marca que me molda e que me conduz, então quanto à relação que eu tenho com a poesia, não só com a obra de painho, mas com a poesia que eu consumo, está muito ligada a esse lugar onde eu me encontro com a palavra como corpo dramático narrativo, esse lugar da palavra poética na declamação, recitação e, por isso, vejo com muita alegria hoje esse crescente movimento de um renascimento da poesia falada, sobretudo no nosso cenário contemporâneo na região metropolitana de Salvador, como tantos movimentos relevantes, como os Poetas da Praça, Sarau da Onça, Sarau do Ghetto, Nosso Sarau, Sarau da Flor, Sarau do João, Slam das Minas, o projeto Fala Escritor, o grupo Nós por Acaso, a trajetória de poetas tão vibrantes como Rita Santana, Kátia Borges, Clarissa Macedo, Lívia Natália, Lucas de Mattos e tantos outros que compõem a cena atual da poesia e, sobretudo, da poesia falada, eu recebo com enorme alegria e entusiasmo, pois, embora estejamos falando de momentos diferentes e de uma atmosfera diferente do contexto que eu experimentei em meu ambiente doméstico, com uma poesia de outra época e forma e conteúdo, é sempre motivo de celebração poder visitar a poesia e dela me alimentar e nutrir.
É nesse lugar que esses movimentos atuais de poesia, saraus e slams se encontram e que me trazem de volta àquele lugar da infância de me abrigar na poesia falada, na poesia na sua materialidade oral, do seu pulsar da fala, então enxergo com muita alegria, reverência e entusiasmo o cenário atual da poesia na Bahia e, claro, saúdo a todos os poetas que fazem desse ambiente o alimento e nutrição para o nosso espírito!

Maria JusTina Tude é filha e intérprete da obra do centenário poeta Tude Celestino de Souza (1921-1989), considerado patrono da Poesia e da reparação da Identidade Ipitanguense no território do atual município de Lauro de Freitas/ TMS e homenageado nesta edição especial.
Atriz, Apresentadora e Mestre de Cerimônias graduada em Artes Cênicas pela UFBA, atua há mais de 30 anos e, nos últimos 15, mais voltada à intersecção entre as áreas das artes da palavra e da cena, em especial, em performances de Recitais de Poesia.
Artista da palavra, escritora, pesquisadora, ativista e gestora em políticas culturais, foi membro fundadora do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Lauro de Freitas, tendo atuado como titular e suplente nos segmentos de Teatro, Educação, Memória e Patrimônio; membro fundadora da Academia de Letras e Artes de Lauro de Freitas (onde ocupou a cadeira que tem o próprio poeta Tude Celestino de Souza como patrono) e, atualmente, integra o Conselho Estadual de Cultura da Bahia, pelo setorial de Memória e é Membro do Conselho Editorial da BFK Books.








